Cresce a frustração com resgate lento de vítimas na Venezuela

Desesperação nas ruas enquanto resgate lento avança na Venezuela
A frustração cresce entre os venezuelanos que aguardam pelo resgate lento de familiares soterrados sob os escombros dos dois devastadores terremotos que atingiram o país nesta semana. Pais, mães, filhos e vizinhos permanecem na esperança de reencontrar entes queridos, enquanto o saldo chega a 1.450 mortos e 3.150 feridos. O resgate lento nas áreas mais afetadas, como La Guaira e Caracas, gera sentimento generalizado de abandono entre a população.
Operações de resgate enfrentam obstáculos significativos
Centenas de edifícios desabaram completamente após os terremotos da quarta-feira, aprisionando milhares de pessoas sob os destroços. Voluntários arrisca-se entre placas de concreto sem equipamento de proteção adequado, retirando manualmente corpos que começam a entrar em decomposição. Um bombeiro que atua na região, ao pedir anonimato, revelou a gravidade da situação: "Há edifícios onde não foi removida sequer uma única pedra".
A falta de maquinário pesado e de equipes especializadas suficientes impede que as operações de resgate avancem no ritmo necessário. Em Caraballeda, a participante das operações de resgate Mileidy Romero denunciou que havia corpos desde a noite anterior, incluindo recém-nascidos, sem que ninguém providenciasse a retirada dos corpos ou resgate de sobreviventes.
Descontentamento público com resposta governamental
Moradores das áreas afetadas manifestam crescente indignação com a atuação das autoridades. Zaira Castro, moradora de Caracas, expressou a insatisfação coletiva: "Estamos todos bastante frustrados porque o governo não oferece o que deveria: uma ajuda séria". Diversos venezuelanos vaiaram a presidente em exercício Delcy Rodríguez durante suas visitas às zonas de desastre, com uma mulher gritando: "Eles estão fazendo campanha em meio a uma tragédia! O governo não faz nada pelas pessoas".
O caso de Carlos Eduardo, de 31 anos, em La Guaira, exemplifica o desespero. Sua família sabe exatamente onde ele está soterrado e conseguiu ouvi-lo sob os escombros, mas não dispõe de recursos para resgatá-lo. Seu primo relatou: "Estamos aqui esperando ajuda, esperando para ver se conseguimos tirá-lo com vida".
Números oficiais e esforços declarados
O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, informou que 12.721 pessoas foram afetadas e 774 edifícios foram danificados ou desabaram completamente. Ele classificou os terremotos como "a mais brutal catástrofe natural que nosso país sofreu em sua história".
Conforme declarações oficiais, 21 delegações internacionais foram mobilizadas para auxiliar nas operações de resgate, totalizando 2.242 socorristas e 96 equipes com cães farejadores. O governo informou também que mais de 30 mil pessoas entre militares, policiais, socorristas, médicos e especialistas estão prestando assistência. Foram enviados 14 mil militares para a região afetada, e o governo decretou estado de emergência.
A presidente Delcy Rodríguez assegurou que os esforços prosseguem "sem descanso" e afirmou: "O resgate das pessoas que estão vivas é nossa prioridade". No sábado, ela confirmou que 33 pessoas foram resgatadas com vida naquele dia após reunir-se com brigadistas internacionais.
O momento crítico das 72 horas iniciais
Especialistas em desastres humanitários alertam que o período de 72 horas após um terremoto é crucial para encontrar sobreviventes. Pessoas presas sob os escombros com ferimentos leves podem sobreviver durante este prazo, enfrentando desidratação e compressão dos destroços. Passado esse limite, as chances de localizar vivos diminuem consideravelmente.
O principal fator determinante é o acesso à água e falta de atendimento médico imediato. Vítimas podem falecer simplesmente por desidratação ou complicações de traumas sofridos durante o desabamento. Steven Salazar Vásquez, paramédico com ampla experiência, manifestou esperança moderada, explicando que embora as probabilidades diminuam após 72 horas, muitos edifícios desabaram apenas parcialmente, podendo ter criado espaços viáveis conhecidos como "triângulo da vida".
Infraestrutura fragilizada e contexto político
Especialistas apontam que a crise política que afeta a Venezuela nos últimos anos explica parcialmente a vulnerabilidade de sua infraestrutura e sua capacidade limitada de resposta diante da tragédia. Os feridos recebem atendimento em instalações médicas improvisadas, e centros de saúde que continuam operacionais estão sobrecarregados.
Profissionais da saúde relataram que, mesmo antes do desastre, era extremamente difícil atender pacientes adequadamente. O ministro do Interior, Diosdado Cabello, pediu aos venezuelanos que abandonem casas danificadas por risco de colapso estrutural e vazamentos de gás, porém faltam fiscalização e recursos para cumprir essa orientação adequadamente.
Estimativas de desaparecidos e perspectivas futuras
A Organização das Nações Unidas estima que aproximadamente 50 mil pessoas estejam desaparecidas. O número de mortos e feridos continua aumentando conforme avançam as operações de busca e identificação dos corpos.
Pelo menos 20 equipes internacionais de busca e resgate foram enviadas à Venezuela através do Sistema Global de Alerta e Coordenação para Desastres da ONU, reforçando os esforços locais. Porém, a velocidade do resgate lento permanece como principal preocupação das famílias e observadores internacionais, que questionam se os recursos mobilizados são suficientes para atender à magnitude do desastre humanitário.
