Sertanejo universitário domina Brasil: evolução de gênero

A trajetória do sertanejo universitário no Brasil contemporâneo
O sertanejo universitário representa atualmente a expressão musical mais consumida nas plataformas de streaming do Brasil. A canção "Eu Te Seguro", interpretada por Panda — nome artístico de Jonathan Scarello dos Anjos — lidera o ranking nacional segundo dados da Pró-Música Brasil, entidade que monitora o mercado fonográfico através das reproduções digitais. Esse fenômeno, porém, marca um ponto de chegada de uma jornada que começou quase um século atrás, bem diferente do que se conhece hoje pelo termo sertanejo universitário.
Das origens caipiras à primeira gravação histórica
A história do sertanejo universitário e de toda a música sertaneja brasileira remonta a 1929, quando a dupla Mariano e Caçula gravou "Jorginho do Sertão", composição do folclorista Cornélio Pires. Essa gravação é considerada o marco fundador do gênero enquanto produto de consumo em massa. A façanha, segundo relatos históricos, foi realizada de forma independente, com Pires alugando estúdio e arcando com custos de prensagem do próprio bolso, num contexto em que nenhuma gravadora tradicional acreditava no potencial comercial da música caipira.
Mariano e Rubens da Silva, apelidado "Caçula", eram irmãos residentes em Piracicaba, no interior paulista. A música que interpretavam era conhecida como moda de viola, expressão genuína das comunidades rurais. O sertanejo universitário contemporâneo, embora mantenha raízes nesse patrimônio, representa uma transformação radical dessa proposta inicial.
O período de consolidação fonográfica (1930-1940)
Os primeiros dez anos após a gravação pioneira marcaram a profissionalização do gênero. Músicos como Raul Torres, paulista de Botucatu nascido em 1906, abandonaram outras profissões para dedicar-se integralmente à carreira artística. Torres, que pretendia conciliar a vida como farmacêutico com apresentações musicais, percebeu rapidamente que o sertanejo oferecia oportunidades comerciais significativas. Sua parceria com Florêncio consolidou essa tendência profissionalizante.
Durante este período, a radiodifusão desempenhou papel crucial no processo de reafirmação cultural dos migrantes que deixavam o campo pelas metrópoles. Estimativas indicam que o gênero já dominava aproximadamente 40% da nascente indústria fonográfica brasileira, demonstrando aceitação popular considerável mesmo naquela fase inicial.
Tonico & Tinoco: o auge da segunda fase sertaneja
A década de 1940 marcou a ascensão da dupla Tonico & Tinoco, composta pelos irmãos João Salvador Perez e José Salvador Perez. Esse período consolidou o formato de dupla com viola e violão como padrão do gênero, afastando-se definitivamente dos instrumentos de choro predominantes em épocas anteriores. O sucesso foi retumbante: gravaram quase mil canções, lançaram 83 discos, realizaram mais de 40 mil apresentações e venderam aproximadamente 150 milhões de cópias em todos os formatos, tornando-se a dupla com maior número de vendagens fonográficas globalmente.
A importância histórica de Tonico & Tinoco reside na ruptura que promoveram: transformaram o sertanejo em gênero capaz de atrair audiência sem vinculação autobiográfica ou afetiva ao mundo rural. Pessoas urbanas, sem conexão com o campo, passaram a consumir o produto musical. Nessa fase, as narrativas deslocaram-se do registro cronístico das rotinas agrícolas para a expressão de saudade nostálgica, refletindo a experiência do êxodo rural em perspectiva emocional.
Incorporação de elementos internacionais nos anos 1950
A partir de 1950, o termo "música sertaneja" tornou-se hegemônico, substituindo as variadas denominações anteriores como música caipira, música do interior ou música do sertão. Simultaneamente, o gênero incorporou influências estruturais da guarânia paraguaia e da ranchera mexicana, demonstrando sua capacidade de absorção de elementos externos sem perder identidade fundamental.
Esse período consolidou a utilização demarcada de ritmos tradicionais como o recortado, o cururu e o cateretê. O hibridismo cultural tornou-se característica definidora do sertanejo, prefigurando a antropofagia musical que caracterizaria o sertanejo universitário décadas posteriores.
A transformação dos anos 1960: modernidade nas cidades
A década de 1960 trouxe mudança paradigmática. O Brasil havia consolidado seu processo de êxodo rural, e a nova audiência do gênero constituía-se predominantemente de filhos de migrantes, nascidos nas grandes cidades. Esses novos ouvintes possuíam dupla educação: tradicional no ambiente doméstico, moderna nas ruas, escolas e locais de trabalho.
Para atender essa demanda específica, surgiu o subgênero que mesclava elementos da Jovem Guarda com raízes caipiras. A dupla Léo Canhoto & Robertinho liderou essa transformação, incorporando guitarras elétricas e enfatizando elementos sonoros de origem mexicana. A música sertaneja deixava de ser cronista exclusivamente rural para relatar também experiências urbanas, marcando o nascimento do que posteriormente seria denominado sertanejo romântico.
O sertanejo romântico dos anos 1980
Os anos 1980 representaram inflexão comercial decisiva. A gravadora Sony percebeu potencial em renovação sonora e visual do gênero, iniciando a era do sertanejo romântico. Sucessos incontornáveis como Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo e Zezé Di Camargo & Luciano exemplificam essa vertente. Rick & Renner, cuja recente morte de Rick ocorreu em acidente de helicóptero, representam derivação posterior dessa mesma tendência.
Nessa fase, o sertanejo finalmente conquistou reconhecimento pela grande mídia como gênero genuinamente popular, embora já dominasse rankings de consumo há décadas. A incorporação de elementos do brega musical intensificou a ênfase no sentimentalismo amoroso exagerado, fenômeno que a época designava como "música de corno". O mercado fonográfico, extremamente dinâmico, capitalizava continuamente essas transformações através de campanhas promocionais institucionalizadas.
O sertanejo universitário: fusão com pop contemporâneo
Na transição para o século XXI, emergiu o sertanejo universitário, designação que reflete mudança geracional e estética. O gênero absorveu elementos do pop internacional, transformando artistas em celebridades pop que cantam músicas em língua portuguesa segundo suas particulares interpretações. A fusão crescente com rock, axé e demais gêneros populares caracteriza essa fase.
As letras do sertanejo universitário dialogam cada vez mais intensamente com público jovem urbano, transitando entre romantismo tradicional e efemeridade contemporânea das relações amorosas. Diferentemente de fases anteriores, a maioria dos astros dessa geração constrói carreiras solo, abandonando o modelo de duplas que historicamente definiu o gênero.
Desdobramentos contemporâneos: feminejo e agronejo
A última década testemunhou emergência do feminejo, movimento em que mulheres — historicamente minoritárias — tornaram-se vozes dominantes no gênero. Artistas como Marília Mendonça, Maiara & Maraísa, Simone & Simaria e Naiara Azevedo conquistaram posições de destaque no mercado.
Paralelamente, desenvolveu-se o agronejo, subgênero que incorpora batidas eletrônicas e características do pop e funk ao sertanejo. Essa vertente tematiza ostentação material e aspectos sensuais de relacionamentos efêmeros. O agronejo apresenta características ideológicas particularmente associadas ao agronegócio latifundiário, com apropriação pela extrema-direita política. Analistas indicam conexões com estruturas de corrupção através de cachês milionários em shows financiados por prefeituras e empresas ligadas ao setor agroindustrial.
O sertanejo como espelho da transformação urbana brasileira
A música sertaneja contemporânea reflete profundamente transformações demográficas e econômicas brasileiras. O gênero predomina nas cidades pequenas e médias, mercado que cresceu economicamente desde os anos 1990, quando as grandes metrópoles cessaram sua expansão acelerada. Grande parcela dos artistas origina-se precisamente dessas localidades, estabelecendo conexão autêntica com suas audiências.
A característica antropofágica do gênero mantém-se como constante histórica. Cada geração incorpora novas estéticas: o forró de "Ai Se Eu Te Pego" de Michel Teló, influências funk e reggaeton, experimentações eletrônicas do agronejo. O sertanejo funciona como guarda-chuva abrangente de gêneros populares, absorvendo continuamente referências externas enquanto mantém identidade reconhecível.
Características musicais permanentes do gênero
Apesar das transformações radicais, certas características persistem desde as origens. O canto em terças — quando um cantor desenvolve melodia em dó enquanto seu parceiro canta em mi — constitui padrão técnico mantido desde os primórdios, anterior mesmo à comercialização industrial. A tradição da canção-romance narrativa, que conta histórias, permanece como fundamento essencial, preservando função que em comunidades não-alfabetizadas a música exercia como registro histórico.
O sertanejo universitário, portanto, representa não apenas transformação estética, mas continuação de práxis musical com raízes centenárias. A capacidade de metamorfose constante, incorporação de influências externas e permanência de elementos identitários define sua longevidade no mercado cultural brasileiro e seu status como gênero musical mais consumido atualmente no país.
