IA pode reduzir autonomia humana sem regulação

IA pode reduzir autonomia humana sem limites regulatórios
A inteligência artificial representa uma ameaça significativa à autonomia da humanidade caso não sejam implementadas regulamentações adequadas em curto prazo. Essa é a preocupação central levantada por Maria Ressa, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, que destaca como a IA reduzirá a independência humana se medidas urgentes não forem tomadas pelos governos e sociedade civil.
Ressa, jornalista de origem filipina e americana, conquistou o reconhecimento do Nobel em 2021 pelo seu trabalho de investigação sobre a influência das grandes corporações tecnológicas na sociedade. Atualmente, ela exerce a função de copresidente do painel científico internacional da Organização das Nações Unidas dedicado ao estudo da inteligência artificial, onde contribui para compreender como essa tecnologia está transformando a existência das pessoas em diferentes regiões do mundo.
As três fases da inteligência artificial
Segundo a análise de Ressa, a inteligência artificial não é nem artificial nem inteligente em sua essência, mas existe há aproximadamente sete décadas e já apresentou três fases distintas de desenvolvimento que chegaram ao conhecimento público. Essas ondas representam uma progressão crescente de complexidade e impacto nas sociedades globais.
Primeira onda: dominação das redes sociais
A primeira fase foi caracterizada pela ascensão das plataformas de redes sociais, que conseguiram capturar a atenção dos usuários de forma sem precedentes. Essas plataformas aprofundaram a polarização política, fragmentaram comunidades e contribuíram significativamente para o isolamento social das pessoas. As redes sociais utilizaram algoritmos sofisticados para manter os usuários presos às plataformas, explorando mecanismos psicológicos naturais da mente humana.
Segunda onda: manipulação biológica através de chatbots
A segunda onda envolveu uma sofisticação maior da tecnologia, focando no que Ressa denomina como 'hackear' a biologia humana. Isso ocorreu novamente através da exploração da necessidade fundamental de intimidade e conexão, mas dessa vez utilizando chatbots avançados. Essas ferramentas foram desenvolvidas para simular relacionamentos humanos genuínos, criando dependência emocional em usuários.
Terceira onda: sistemas agentivos e multiagentivos
A terceira onda, que está emergindo atualmente, envolve a chamada inteligência artificial agentiva e multiagentiva. Esses sistemas não apenas simulam comportamentos humanos com precisão impressionante, mas também possuem capacidade de agir de forma autônoma em nome dos usuários. Essa é a fase mais perigosa, pois reduz significativamente a participação ativa das pessoas nas decisões que as afetam.
A urgência da regulamentação
Ressa é enfática ao afirmar que "estamos naquele momento em que, se isso não acontecer, vamos perder o controle. A situação ficará fora do nosso alcance se não agirmos agora". Essa declaração foi feita durante sua participação numa conferência realizada em Oslo, capital da Noruega, que discute ameaças contemporâneas às democracias em todo o mundo.
A jornalista defende que os cidadãos exerçam pressão constante sobre líderes políticos e autoridades para que aprovem regulamentações robustas sobre o uso da inteligência artificial. Para ela, essa reivindicação não se configura como uma questão relacionada à liberdade de expressão, mas sim como uma matéria de segurança pública fundamental.
"Pedir regulamentação não é uma questão de liberdade de expressão. É uma questão de segurança pública", declarou Ressa em entrevista à agência Reuters, reforçando a natureza crítica dessa demanda.
Críticas às objeções políticas
Alguns críticos destacados, incluindo o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, rejeitam sistematicamente os apelos por maior regulamentação da inteligência artificial. Esses opositores argumentam que regulações excessivas podem prejudicar a competição tecnológica americana contra a China, uma potência emergente nesse setor.
Ressa classifica esse argumento como uma "boa manobra de relações públicas" que desvia do verdadeiro problema. Ela argumenta que "na verdade, a China estabelece mais salvaguardas para seus cidadãos do que o Vale do Silício para o restante do mundo". Como exemplo prático, Ressa cita que a versão do TikTok disponível na China possui restrições rígidas de idade, enquanto a versão global permite acesso irrestrito a menores.
Responsabilização das grandes tecnológicas
Ressa sustenta que o primeiro passo fundamental para promover mudanças significativas é fazer com que as corporações de tecnologia sejam responsabilizadas pelos danos que causam à sociedade. Ela elogiou as ações judiciais promovidas nos Estados Unidos que resultaram em Meta pagando até 18 bilhões de dólares ao longo da próxima década e restringindo fortemente o uso do Facebook e Instagram entre adolescentes.
Além disso, ela reconhece positivamente as medidas adotadas pela União Europeia e países como a Austrália para estabelecer limites de idade nas redes sociais. Entretanto, afirma que essas medidas não resolvem a "falha fundamental" de que as ferramentas desenvolvidas pelas empresas de tecnologia geram dependência também entre adultos.
Soluções alternativas: plataformas de interesse público
Para enfrentar adequadamente o problema, Ressa propõe a criação de plataformas de comunicação desenvolvidas por grupos de interesse público e fora do controle das grandes corporações tecnológicas. Esse modelo deveria funcionar de forma similar ao investimento que governos fazem em bens públicos, como parques e praças.
Como exemplo prático dessa abordagem inovadora, Ressa cita o lançamento do Rappler Communities em 2023. Baseado no protocolo aberto, seguro e descentralizado Matrix, essa plataforma permitiu que a redação do Rappler se conectasse diretamente com seus leitores, e que os próprios leitores interagissem entre si para "ter conversas reais" sem algoritmos manipuladores.
O Rappler convidou outros veículos de comunicação das Filipinas a participar dessa iniciativa pioneira, e agora está expandindo esse modelo inovador para outros países do Sudeste Asiático, demonstrando a viabilidade de alternativas ao modelo corporativo dominante.
"É um lugar onde as pessoas podem se sentir seguras no ambiente digital, onde podem conversar umas com as outras e, mais importante ainda, ouvir umas às outras para que a grande obra da democracia se concretize", concluiu Ressa sobre a importância dessa abordagem alternativa.
