Deportados dos EUA enfrentam terremoto na Venezuela

Uma chegada marcada pela tragédia
No dia 24 de junho, um voo de deportação carregando 146 migrantes venezuelanos chegou ao país natal deles, trazidos de volta pelo governo dos Estados Unidos. Os deportados dos EUA foram recebidos pela Missão Volta à Pátria e levados ao Hotel Santuário La Llanada, em La Guaira, capital do Estado de Vargas. Poucas horas depois, dois terremotos devastadores sacudiram a Venezuela, deixando mais de 2 mil mortos e dezenas de milhares feridos e desaparecidos. O edifício onde realizavam procedimentos administrativos desabou durante os tremores, transformando o que deveria ser um reencontro familiar em uma catástrofe humanitária.
O caso do voo 164 representa uma das histórias mais trágicas relacionadas aos deportados dos EUA em tempos recentes. Muitos destes migrantes haviam deixado o país anos antes, fugindo do colapso econômico e da perseguição política, buscando oportunidades na América do Norte. Depois de meses ou anos de detenção, foram enviados de volta através de operações de deportação intensificadas pela administração Trump.
A sorte de quem não atendeu uma ligação
Entre os sobreviventes está Orlando Torres, um dos deportados que deve sua vida a um acaso extraordinário. Minutos antes do terremoto, Torres estava em um edifício anexo ao principal, tentando cumprir seu último trâmite administrativo: ligar para seu irmão, a pessoa designada para recebê-lo. Como a chamada não foi atendida, seu procedimento atrasou alguns minutos cruciais. Enquanto esperava, o edifício principal de quatro andares desabou, enterrando a maioria de seus companheiros de viagem sob os escombros.
Torres sentia o terremoto lançá-lo ao chão, mas conseguiu se levantar, colocar uma cadeira sobre a cabeça e correr até a saída. Quando saiu, confrontou-se com o horror de ver o prédio onde iria se hospedar naquela noite completamente destruído, com seus companheiros de viagem sob as ruínas.
Sobrevivência através da solidariedade
Os relatos dos sobreviventes revelam um padrão preocupante: muitos tiveram que se resgatar sozinhos, ajudados apenas por outros deportados que conseguiram escapar. Pedro, um dos migrantes, descreveu ficar preso sob escombros com outros homens ao seu redor, todos gritando na escuridão, sentindo o pó entrando pelos narizes enquanto respiravam. Levou tempo até que alguns dos deportados que conseguiram sair começassem a trabalhar para resgatá-lo, movimentando os destroços que o aprisionavam.
Ninoska Gutiérrez passou por experiência semelhante. Ela estava com mais de dez mulheres quando o terremoto começou. Ao tentar escapar, caiu e teve as pernas presas pelos escombros do teto e da parede. Em estado de choque, pensava que não veria sua família novamente. Gradualmente, alguém começou a remover os escombros de cima dela até que conseguiu mover as pernas e encontrar uma abertura no teto desabado, onde outro deportado sobrevivente a ajudou a sair.
José Navas estava no terceiro andar quando os terremotos ocorreram. Relata que havia cerca de 10 outros homens vivos e conscientes ao seu lado. Juntos, com a ajuda de outro homem, começaram a abrir um buraco grande o suficiente para escaparem. Esses relatos demonstram que a maioria dos resgates foi realizada pelos próprios migrantes, movidos pela vontade de sobreviver e pela solidariedade entre pessoas que, na maioria dos casos, nem mesmo se conheciam antes daquele dia.
Resposta insuficiente das autoridades
Uma reclamação consistente entre os sobreviventes e familiares é a falta de assistência imediata das autoridades venezuelanas. Testemunhas relataram que agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência, o Sebin, que estava presente no local, inicialmente não reagiram adequadamente à crise. Alguns relatos indicam que os agentes se concentraram em resgatar seus próprios companheiros em vez de ajudar os migrantes deportados presos sob os escombros.
Segundo os testemunhos coletados, o primeiro grupo de bombeiros chegou ao hotel apenas depois das 23 horas do dia 24 de junho, aproximadamente cinco horas após o terremoto ocorrer. Inicialmente, transportaram apenas os feridos, e foi somente perto das três da manhã que começaram a ajudar a levantar escombros e retirar pessoas das ruínas. Com a chegada do amanhecer em 25 de junho, os funcionários do Sebin fecharam o acesso ao hotel, impedindo que familiares procurassem por seus entes queridos.
Buscas desesperadas e corpos em decomposição
Ainda no mesmo dia da tragédia, familiares começaram a procurar desesperadamente pelos deportados. Muitos percorreram hospitais e necrotérios tentando localizar seus parentes. José Rincón, avô de Abelardo Rincón, um jovem de 23 anos que retornava de Atlanta, afirma ter revisado mais de 200 corpos procurando pelo neto. Ele se aproximou do Hotel Santuário La Llanada, mas agentes do Sebin não permitiram sua passagem, alegando que "não há vida" no hotel.
Paola Chacón, prima de Darwin Eliécer Serrano López, de 35 anos, também deportado no voo 164, dirigiu a noite toda quando recebeu a notícia da tragédia. No dia seguinte, ela pediu às autoridades que entregassem o corpo de seu primo para funeral adequado, mencionando que o estado de decomposição era avançado e que a família precisava reconhecê-lo e sepultá-lo dignamente.
Contagem de vítimas incerta
Uma contagem inicial informal, baseada em testemunhos de um pequeno grupo de sobreviventes, sugeria que apenas 12 pessoas teriam sobrevivido dos 146 deportados dos EUA que chegaram no voo 164. Testemunhos posteriores de vítimas e familiares indicam que o número de sobreviventes pode ser maior, embora as autoridades venezuelanas não tenham fornecido um balanço público oficial sobre o destino final destes migrantes.
A BBC News Mundo apresentou pedidos de informação ao chefe da Missão Volta à Pátria, Mervin Maldonado, mas não recebeu resposta. O Departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos forneceu apenas uma breve declaração, afirmando que o voo chegou com segurança à Venezuela e que todos foram devolvidos ao país, mas sem oferecer detalhes sobre o que aconteceu posteriormente ou a responsabilidade dos EUA após a chegada.
Momentos de alegria antes da tragédia
Ironicamente, antes do desastre, houve momentos de genuína alegria entre os deportados. Segundo os relatos, quando o avião de transportadora Global X se aproximava do aeroporto de Maiquetía, apesar de serem algemados e amarrados, os migrantes começaram a expressar sua felicidade por retornarem ao país. Pedro recorda que as pessoas aplaudiam e havia muita alegria na aeronave, características típicas da cultura venezuelana.
Uma vez no hotel, antes do terremoto, os deportados se reuniram em quartos e compartilhavam histórias. Um contava sobre querer visitar as praias da Venezuela, outro comentava sobre o contraste com as praias frias dos Estados Unidos. No quarto das mulheres, Ninoska Gutiérrez relata que estavam felizes por ter chegado ao país, compartilhando experiências sobre suas detenções na América do Norte. Este ambiente de camaradagem seria quebrado em questão de horas.
Gestos de solidariedade em meio ao caos
Além da falta de assistência oficial, a história também revela notáveis gestos de solidariedade entre as vítimas. Isolados em um hotel sem acesso a telefones celulares, os migrantes deportados criaram laços rápidos uns com os outros. Alguns foram batizados com apelidos coloridos: el gocho para quem vinha dos Andes, el llanero para quem vinha das planícies do Orinoco, el viejo para os mais idosos. Um deles recebeu o apelido de Superman por ter supostamente saltado por uma janela durante o terremoto e depois ajudado a resgatar outros presos, conseguindo até uma motocicleta para pedir ajuda às autoridades em Maiquetía.
Os familiares dos deportados realizaram trabalho paralelo nas redes sociais, criando um grupo que chegou a ter mais de 500 membros, compartilhando pistas e informações para tentar localizar seus entes queridos. Muitos exigiram justiça nos comentários das postagens oficiais sobre a chegada do voo 164, argumentando que se os migrantes tivessem sido liberados para reunir-se com suas famílias assim que chegassem, a tragédia teria sido evitada.
Questionamentos sobre política de deportação
A história dos deportados dos EUA no voo 164 levanta questões importantes sobre a responsabilidade durante operações de repatriação. Muitos questionam por que os migrantes foram mantidos em um único hotel em uma área de risco sísmico, por que não foram liberados imediatamente para suas famílias, e por que as autoridades não estavam preparadas para uma emergência em larga escala. A falta de transparência das autoridades venezuelanas sobre o número exato de mortos e desaparecidos entre este grupo específico aumenta a frustração dos familiares que continuam buscando respostas.
