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De la Espriella e Cepeda: duas visões opostas na eleição colombiana

A divisão política na Colômbia: De la Espriella versus Cepeda

O segundo turno da eleição colombiana neste domingo (21 de junho) apresenta uma disputa marcada por visões radicalmente opostas sobre o futuro do país. A eleição colombiana concentra-se em dois candidatos com projetos governamentais completamente distintos: Abelardo de la Espriella, advogado de orientação conservadora, e Iván Cepeda, senador e filósofo de postura progressista. Essa confrontação reflete não apenas diferenças ideológicas, mas também representa duas Colombias com interesses, valores e aspirações divergentes.

No primeiro turno, a disputa manteve-se equilibrada. De la Espriella conquistou 43,7% dos votos, enquanto Cepeda obteve 40,9%, consolidando uma competição acirrada que se prolonga para esta fase decisória. Ambos os candidatos encaram uma eleição colombiana que expressa, em muitos aspectos, as contradições históricas e contemporâneas da nação.

Propostas econômicas e modelos de gestão distintos

As diferenças econômicas entre os candidatos revelam-se fundamentais para compreender o cenário político atual. De la Espriella apresenta um programa alinhado com as perspectivas conservadoras globais, inspirando-se em figuras como Donald Trump nos Estados Unidos, Javier Milei na Argentina e Nayib Bukele em El Salvador. Seu plano econômico prioriza a redução do tamanho estatal, diminuição de impostos para empresas e uma abordagem linha dura contra a criminalidade.

Cepeda, por sua vez, defende uma agenda progressista que contempla reformas sociais abrangentes, maior atuação do Estado na economia, transformação do setor agrário como motor nacional e apoio às pequenas empresas. Sua plataforma busca dar continuidade às políticas do presidente Gustavo Petro, mantendo o compromisso com mudanças sociais significativas e um discurso conciliador na segurança pública.

Geografia do voto: regiões periféricas versus centros urbanos

Uma análise territorial revela padrões consistentes nas preferências eleitorais colombianas desde o plebiscito de 2016 sobre o acordo de paz. As regiões periféricas - incluindo litorais, Amazônia e fronteiras - tendem a votar à esquerda, enquanto as áreas centrais, atravessadas pelos Andes, apresentam inclinação conservadora. Cepeda obteve seus melhores resultados no primeiro turno justamente nessas regiões periféricas, onde comunidades afro-colombianas, povos indígenas e populações economicamente vulneráveis constituem seu principal eleitorado.

Yann Basset, cientista político da Universidade do Rosario, explica que essas divisões territoriais refletem diferenças econômicas profundas. O centro colombiano desenvolve-se através de um sistema agroindustrial integrado aos centros urbanos, enquanto as periferias caracterizam-se por economias extrativistas, frequentemente acompanhadas de limitada presença estatal e maior incidência de violência relacionada ao tráfico de drogas.

Nas grandes cidades como Bogotá, Medellín, Cali e Barranquilla, as dinâmicas eleitorais apresentam maior complexidade. Contudo, observa-se que estratos de renda mais baixa tenderam a favorecer Cepeda, enquanto classes média e alta concentraram seus votos em De la Espriella, demonstrando uma clara segmentação socioeconômica.

Raízes históricas da polarização colombiana

A historiadora Felipe Arias Escobar identifica continuidades históricas que transcendem a simples dicotomia entre esquerda e direita. As regiões andinas votaram historicamente no Partido Conservador, enquanto as áreas litorâneas apoiaram o Partido Liberal, padrão que persiste nas preferências contemporâneas dos eleitores. Essas identidades políticas herdadas reaparecem através de novas denominações e movimentos.

Setores que outrora sustentavam o Partido Conservador e posteriormente o ex-presidente Álvaro Uribe encontram hoje representação nas propostas populistas de direita encarnadas por De la Espriella. De forma similar, eleitores que historicamente apoiavam o Partido Liberal migraram gradualmente para opções progressistas como Cepeda e Petro, buscando respostas às suas demandas específicas de inclusão social e justiça econômica.

O papel das demandas sociais contemporâneas

A crise social de 2021, que eclodiu contra o modelo econômico predominante e a política tradicional durante o governo do conservador Iván Duque, redefiniu o mapa político colombiano. As manifestações massivas, embora acompanhadas de violência e repressão estatal crítica pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, revelaram novas cidadanias e demandas identitárias que permanecem centrais nesta eleição colombiana.

Analistas vinculam significativa parcela do apoio a Petro e Cepeda àquele movimento de mobilização social. Paralelamente, a ascensão de De la Espriella representa uma tentativa das direitas em recompor-se e frear o avanço dessa nova cidadania representada pela esquerda progressista.

Eleitores voláteis e posições dinâmicas

Juan Fernando Giraldo, cientista político especializado em opinião pública, ressalta que as identidades políticas contemporâneas mostram-se menos estáticas do que em períodos anteriores. Diferentemente dos anos 1940 e 1950, quando a filiação partidária determinava praticamente toda a identidade do indivíduo, hoje observa-se maior fluidez nas preferências eleitorais.

Colombianos modernos frequentemente combinam apetência por autoridade estatal forte com valores religiosos católicos ou cristãos, simultaneamente com demandas por reformas sociais significativas. Essa volatilidade sugere que grande segmento do eleitorado permanece pouco polarizado, votando em candidatos muito distantes entre si sem necessariamente encarnar a polarização que aparenta existir nas análises de elite.

Giraldo identifica ainda um grande bloco cidadão com posições menos intensas sobre questões políticas fundamentais, composto por pessoas que não acreditam fortemente se a autoridade estatal deva ser reduzida ou expandida. Esses eleitores, frequentemente menos informados e expressos publicamente, possuem capacidade decisória na eleição colombiana mas raramente figuram nas análises convencionais de polarização.

Marketing político e mensagens efetivas

O desempenho de De la Espriella no primeiro turno refletiu também estratégia comunicacional sofisticada. Suas mensagens claras sobre família, autoridade estatal e combate firme à criminalidade mostraram-se particularmente persuasivas, ressoando com segmentos do eleitorado além das bases conservadoras tradicionais.

A estratégia da esquerda de unificação em torno de Petro traduziu-se em elevada intenção de voto para Cepeda, embora Giraldo observe que muitos eleitores que se entusiasmam com a forma como Petro comunica suas ideias não necessariamente se identificam como esquerdistas ou defendem direitos das minorias. Essa desconexão entre apoio eleitoral e identificação ideológica revela a complexidade real do eleitorado colombiano.

Perspectivas para o segundo turno

Conforme a nação se aproxima do segundo turno, as análises superficiais de uma Colômbia simplesmente dividida em dois falham em captar as nuances do comportamento eleitoral. Embora De la Espriella e Cepeda representem propostas radicalmente opostas, o resultado final dependerá não apenas de polarização ideológica, mas de como cada candidato conseguir mobilizar aquele vasto segmento de eleitores voláteis e pouco intensamente comprometidos com categorias políticas rígidas. A eleição colombiana de 2026 determinar-se-á, portanto, não apenas pelas diferenças conhecidas entre os candidatos, mas pela capacidade de cada um em traduzir suas visões em respostas concretas às demandas reais e diversas dos colombianos.

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