Carne bovina brasileira cresce 524% em exportações para EUA

Recuperação expressiva das exportações de carne bovina brasileira
As exportações de carne bovina brasileira para os Estados Unidos registraram um aumento espetacular de 524,3% em setembro, em comparação com o mesmo período do ano anterior, conforme dados divulgados pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham). Este resultado representa uma recuperação significativa do setor pecuário brasileiro no mercado americano, mesmo em um cenário de pressões tarifárias internacionais.
O crescimento extraordinário das exportações de carne bovina reflete tanto o aumento da quantidade de produtos vendidos quanto a elevação dos preços médios praticados no mercado internacional. Em setembro, os envios brasileiros para os americanos atingiram US$ 3,5 bilhões, marcando uma alta de 31,9% em relação a setembro do ano anterior.
Desempenho anual ainda marcado por retrações gerais
Apesar da recuperação impressionante em setembro, o acumulado do ano ainda apresenta desafios significativos. De janeiro a setembro, as exportações totais do Brasil para os Estados Unidos somaram US$ 27,5 bilhões, representando uma queda de 6,5% em relação ao mesmo período do ano passado. Este valor corresponde a uma redução de US$ 1,9 bilhão, configurando-se como o menor volume dos nove primeiros meses desde 2023.
O cenário de retração geral está diretamente associado às sobretaxas impostas pela administração de Donald Trump a produtos brasileiros. Neste contexto desafiador, a carne bovina brasileira emerge como uma das poucas categorias beneficiadas, permanecendo entre as exceções às tarifas adicionais, juntamente com café solúvel, mel orgânico e pescados como a tilápia.
Crescimento acumulado da carne bovina no período
No acumulado de janeiro a setembro, as vendas de carne bovina ao mercado americano cresceram notavelmente 82,9%, atingindo US$ 1,72 bilhão. Este desempenho positivo contrasta marcadamente com o resultado geral das exportações brasileiras, evidenciando a força específica do setor de carnes no mercado norte-americano.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), o crescimento é impulsionado por múltiplos fatores. Além da cota adicional de importação iniciada em setembro, a demanda dos Estados Unidos é estimulada pela restrição na oferta interna de gado, consequência da fase de baixa do ciclo pecuário americano. Esta dinâmica cria uma oportunidade única para os produtores brasileiros atenderem à demanda do mercado americano.
Contraste com outros produtos da pauta exportadora
O desempenho positivo da carne bovina contrasta significativamente com outros produtos importantes da pauta exportadora brasileira. As vendas de petróleo bruto aos Estados Unidos caíram 35,8% no período, enquanto as exportações de café não torrado recuaram 20%. Já as exportações de produtos semiacabados de ferro, que ainda precisam passar por outras etapas de fabricação, diminuíram 4,3%.
Esta diferenciação entre setores reflete a complexa relação comercial entre Brasil e Estados Unidos, onde produtos específicos encontram maior resiliência diante das pressões tarifárias globais, enquanto outros sofrem impactos consideráveis das políticas protecionistas americanas.
Retração generalizada nos principais setores econômicos
A queda das vendas aos Estados Unidos não se limita a produtos específicos, estendendo-se aos três grandes setores da economia brasileira. Entre janeiro e setembro, as exportações brasileiras para o mercado americano recuaram 17,8% no setor agropecuário, 32% na indústria extrativa e 1,2% na indústria de transformação.
É notável que este comportamento seja distinto quando considerados os demais mercados internacionais. Excluídos os Estados Unidos, as exportações brasileiras cresceram 8,9% na agropecuária, 21,2% na indústria extrativa e 6,3% na indústria de transformação, demonstrando que a pressão tarifária americana é o principal fator de desaceleração das exportações brasileiras.
Importância dos produtos industrializados nas relações comerciais
Apesar da retração observada, os produtos industrializados continuaram concentrando a maior parte das vendas brasileiras aos americanos, representando 84,4% do total exportado entre janeiro e setembro. A queda de 1,2% nas exportações desse setor marcou a primeira retração para o período desde 2020, ano caracterizado pela pandemia de COVID-19.
Mesmo assim, os Estados Unidos permaneceram como o principal destino dos produtos industrializados brasileiros, posicionado à frente de importantes concorrentes como União Europeia, China e Mercosul. Esta predominância reafirma a importância estratégica do mercado americano para a indústria brasileira.
Produtos sujeitos a tarifas acumulam perdas significativas
As exportações de produtos brasileiros sujeitos a tarifas adicionais dos Estados Unidos apresentaram recuperação em setembro, mas continuam acumulando perdas no ano. No mês de setembro, as vendas desses produtos cresceram 28,1% em valor, atingindo US$ 1,46 bilhão. Entre os itens submetidos às tarifas mais elevadas, de 25% a 37,5%, a alta foi de 27,8%, totalizando US$ 466,5 milhões.
Contudo, de janeiro a setembro, as exportações desse último grupo recuaram 25,4%, equivalente a US$ 1,4 bilhão a menos em vendas. Entre os dez produtos mais exportados aos Estados Unidos sujeitos a tarifas adicionais de 25% ou 37,5%, nove registraram queda no acumulado do ano, com destaque para madeira de coníferas (recuo de 50,6%), granitos trabalhados (queda de 34,1%) e sebo bovino (diminuição de 33,4%).
Importações americanas mostram sinais de recuperação
Na direção oposta à das exportações brasileiras, as importações de produtos americanos voltaram a crescer em setembro. As compras brasileiras somaram US$ 4,43 bilhões, registrando alta de 2,1% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Foi o terceiro mês consecutivo de crescimento, interrompendo uma sequência de sete meses de queda.
O avanço foi impulsionado principalmente pelos combustíveis, cujas importações aumentaram 108,5% em setembro. Entre janeiro e setembro, as compras brasileiras dessa categoria totalizaram US$ 6,86 bilhões, alta de 68,5% na comparação anual, evidenciando a dependência brasileira de energia americana.
Déficit comercial Brasil-EUA em perspectiva
Apesar da recuperação mensal, as importações totais de produtos americanos caíram 7,1% no acumulado do ano, para US$ 31,8 bilhões. Com as importações superiores às exportações, o Brasil acumulou déficit comercial de US$ 4,3 bilhões com os Estados Unidos nos nove primeiros meses do ano. Este resultado negativo, indicando que o país comprou mais do que vendeu ao mercado americano, foi 10,8% menor do que o registrado no mesmo período do ano anterior, apresentando alguma melhoria na balança comercial bilateral.
